quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

CINZAS DO COTIDIANO


Ao meu lado, apenas o que sobrou do copo de café já frio. Mas por aquelas árvores, por aqueles bancos perscruto sons do passado e, como quem renasce, passo a escutar ruídos antigos, frases e luzes carregadas de história. Aos poucos, ao meu lado surgem protagonistas do mundo de lá, onde o vento é livre e sensível. Rodeiam-me amigos do passado, das alegrias e dos diálogos. Rodeiam-me amores de um beijo apenas. Ao meu lado, histórias fazem adjetivar o dia.
O vento trouxe consigo os ciganos de minha memória. Trouxeram presentes, juntaram-se a mim e ceiamos juntos. Por alguns momentos, deixei de lado o cotidiano para adentrar ao mundo colorido de lá, das cores e dos sons das histórias.
Se busco este mundo é porque pessoas já foram e levaram consigo parte de mim em histórias inacabadas. Momentos incompletos me escaparam das mãos e voaram para longe, deixaram marcas tão lindas quanto uma revolução sem sangue. Deixaram porvir o sabor da descoberta e, para se comunicarem comigo, elegeram a poesia. São momentos únicos, leves como água, claros, límpidos e rápidos, mas deixaram marcas profundas, capazes de tombar o dia e reduzi-lo a cinzas levadas pelo vento.
Por estes momentos, carrego lembranças raras, bem guardadas. Por estes momentos, recrio o mundo em infinitas variações de cores e deixo que meus sentimentos ao vento lancem as cinzas do cotidiano.
Rafael Guerreiro

Um comentário:

Teresa Cristina disse...

Rafa, que lindo! Fiquei emocionada e recordei-me de Fernando Pessoa que disse: "O VALOR DAS COISAS não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."