terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

DURANTE A CHUVA

Naqueles pingos de chuva que caiam, deslizava o verbo ser em cadências repetidas.
Chovia uma chuvinha fina, daquela que faz-nos prender a nós mesmos num estado de análise. No fundo, o motivo dessa melancolia era o tempo que teimava em passar tão rápido. Essa era a esfinge que consumia meus pensamentos.
Recuso-me a acompanhar o tempo, prefiro a quebra da cadência repetida das horas sem adjetivos. Debruço-me em déjà vus inesperados como quem procura advérbios para a alma.
Olho para o chão próximo do meu quarto. Vejo apenas as ondas que se formavam pela queda dos pingos d’água amontoados. Esse era o movimento que eu buscava, desordenado, caótico, sem referências.
A imagem onírica dos pingos que caíam, criava em mim a sensação de negar qualquer ordem artificial, qualquer tentativa ensandecida de regrar o presente em horários estabelecidos, em neuroses que me prendem num cárcere de grades invisíveis.
Fecho os olhos num momento sem fim, onde já não há mais o tempo nem o mundo contido em suas leis humanas. Escuto simplesmente os pingos d’água caindo, caóticos, livres, comunicando a mim o recado nítido de que amam o que são, porque são livres enquanto existem.

Rafael Guerreiro

Um comentário:

Paulinha disse...

olá!!!
O tempo que buscamos é aquele que nos proporciona o momento certo,para que a contínua caminhada se destine rumo a vitória dos essenciais e invisiveis aos olhos!
Adorei !
Parabéns!
Beijos!beijos!!!!!