terça-feira, 26 de julho de 2011

RETALHOS DO ACASO

Quais segredos guarda uma paixão de três dias? Talvez nenhum, mas talvez exista nesta singularidade volátil a possibilidade de um engano feliz, de um prazer único, sem medições temporais.
Quanta filosofia pode ser pensada na fumaça de um cigarro! E no microcosmos moral de cada verdade errante que perambula por este universo indiferente, lanço minha descrença sobre qualquer idealismo.


Sim, eu que sempre me aturdi por razões soberanas, silhuetas da eternidade e visões metafísicas dos porquês e das tradições, sim, eu deito por terra qualquer sentido, qualquer nobre destino, qualquer ousadia sobre transcrever o indizível.
No aconchego de minhas palavras, percebo que a única resposta ao absurdo de Camus é nossa indescritível e indecifrável capacidade de amar.  
Amor. Mas que palavra é essa, meu Deus? O que entende o outro sobre o que amo ou como amo? Não sei, tudo o que sei é que amamos despidos de qualquer ciência.
Por isso, aprendo com o acaso. Dou-lhe crédito e fé. E na construção diária do que chamo minha vida, primeiramente devo ao acaso o cimento que assenta cada tijolo dos muros erguidos a cada escolha que faço com meus passos cegos de eternidade. E sigo amando por estes retalhos de mar e por estas ilhas de felicidade.

Rafael Guerreiro

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Eu já havia assistido ao "Brilho Eterno" há alguns anos atrás. Mas da mesma forma que um bom livro, um bom filme sempre apresenta uma segunda perspectiva quando assistido pela segunda ou terceira vez. E não foi diferente com este filme.A primeira vez que o assisti, o Brilho passou um tanto despercebido. Talvez eu não havia ainda me dado conta de como algumas lembranças se mesclam a nós mesmos e se tornam parte de nossa história, de nosso próprio ser.
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é um filme avassalador e sua genialidade é diluída no cotidiano simples e comum de um casal de namorados  apaixonado e que sofre as sutilezas do amor da mesma forma como qualquer um de nós, expectadores.
Mesmo que um relacionamento acabe, restam lembranças tão caras que jamais se perderão. São marcas e estão em nós como tatuagem em nossa pele.
Após assistir ao filme, fiquei o resto do dia pensando sobre as sensações que senti enquanto o personagem de Jim Carrey sofria as angústias de saber que parte de sua história era apagada de sua memória sem que nada pudesse ser feito.
Senti angústia e tristeza.
Fiquei angustiado porque há em mim lembranças tão caras que se fossem apagadas fariam de mim um ser humano menor, menos vivido. E me peguei triste porque se algumas dessas lembranças que guardo de forma tão cuidadosa fossem deletadas de minha história, eu perderia a única forma que tenho de reviver momentos e sensações que jamais se repetirão. É um pedacinho de alguém que ainda resta em mim, mesmo que esta pessoa esteja longe ou apenas trilhando seus caminhos por outros rumos que não os meus.
E quando se trata de amor e carinho, tudo fica ainda mais complexo. Guardar estas lembranças, às vezes tão pequeninas, me ajuda a perceber a singularidade de cada pessoa, com seus sorrisos e lágrimas, seus gestos e seus perfumes muito raros, os quais guardo em frascos pequenos, caros, exóticos.

Rafael Guerreiro

terça-feira, 5 de abril de 2011

Para Ti, garota!


Tu, garota, que estás aí do outro lado, de olhos negros perdidos em mar aberto, contemplativa, esperando por alguém que lhe seduza não só o corpo, mas também os sonhos.
Tu, que és livre, solitária, portadora dessa tristeza tão cálida, tão marcantemente tua e que adoravelmente Vinícius cantaria em Itapuã.
Deixo a ti, garota, o que de mais caro possuo. Deixo-te a terceira margem de meus versos. Deixo aos teus sabores toda lógica, todas as interpretações que se podem fazem.
E despido de qualquer axioma, procuro em teus olhos marejados de mar um instante de conforto, qualquer razão que me permita penetrar-lhe o semblante, essa alma que tu tens e que tanto me comove.
Por que olhais o mar dessa forma, garota linda? O que procuras no mar e desprezas tanto assim na terra? Qual é essa força inexorável contida nos teus olhos de sonhos e brilhos e que tanto me força a engastar as palavras?
Veja, garota, veja! Recebe minhas margens e as transponha com teus olhos infinitos. Quebre-as em outras mil paragens, outras tantas formas de amar.
Tu que estás aí tão longe e que sente o perfume dourado do sol, recebe este presente, garota, recebe minhas margens, este porto tão singelo, doce alento ao final de teus tormentos tão serenos.

Rafael Guerreiro

Minhas Filhas


Já não sei mais o que escrevo. Já não sei mais se é crônica, conto ou poema.
Tudo o que sei é que o mundo todo quer seu espaço no branco do papel.
E depois de tanto tempo sem escrever, percebo hoje como está difícil deixar que as ideias sejam livres.
Sim, depois de tanto tempo. Tanta coisa passou, quantas pessoas passaram, quanto sentimento foi e voltou. Sorrisos, choro, angústia, raiva, alegria, felicidade e tristeza, amor e ódio, antagonias do Alentejo.
Ah! Meu Deus, quantas ideias se perderam para sempre, quantos abortos sem nenhuma chance.
Queria eu podê-las reunir em uma mesa com a família e passar um momento calado enquanto todos riem a vida sem qualquer maldade.
E calado eu as deixaria ao sabor do vento dançando para mim. Elas seriam eu, um eu mais eu que eu mesmo, no silêncio do que se passa dentro dos olhares.
Eu, somente eu, sem vaidades nem trajes.

 
Rafael Guerreiro

domingo, 16 de janeiro de 2011

Apenas para não passar em branco...

Ai, ai...Hoje, após a costumeira missa dominical, resolvi passar pelo calçadão quando, de súbito, avistei o Claudeci, minha vítima de hoje. Jogamos e, bem, antes que eu desse o derradeiro mate, o Clau disse q precisava comprar cigarros e saiu sorrateiramente, sem meias palavras...

Rafinha Capa Blanca

sexta-feira, 3 de julho de 2009

OSSOS DO OFÍCIO

O cidadão chegou ao bar procurando um remédio. Pediu um "rabo de galo" e o bebeu num gole fundo. Sarou das tragédias.
Pediu também um mastigo de ontem e comeu ensalivando a boca.
O cidadão não se importava com mais nada. Vencido o dia, pôs língua para a vida porque naquela hora, e só naquela, sagrava-se rei de um momento de fartura.
Deixou o pranto das horas para depois e tascou nos lábios um sorriso aberto, palestrando e rindo para todos, mesmo que os outros não rissem tanto.
O cidadão era coveiro e já enterrou mais finados do que podia suportar. Seus clientes são os mais impacientes, não aceitam espera. Se o coveiro não lhes atende rápido, logo se derretem de tanto incômodo, sem cerimônias.
Era essa a sua profissão e segurou a vida no cabo de uma pá de cal sem deixar ninguém esperando. E pelas suas mãos, muitos descansaram em paz na certeza de um túmulo hermético.
O coveiro trabalhou muito, fez muitos enterros. A cal já havia lhe cortado a carne como navalha e o cheiro das carneiras cheias e apodrecidas e das flores fúnebres há muito lhe estragou as narinas.
Suportou ainda as lágrimas de tantos corações partidos e desolados despedindo-se dos seus pela última vez. E viu que, diante da morte, de nada adiantavam os lamentos.
E de brinde, sem esforços, há tempos havia decorado as exéquias.
Assim, depois de tantos enterros, chegou ao bar procurando um remédio. Queria esquecê-los, assim como as choradeiras. Queria, ao menos por um dia, esquecer os semblantes fechados que encontrava pelos dias de profissão.
Ficou de tal forma ensandecido que sua vontade era mais de caçoar dos defuntos, chamar-lhes apresuntados, medir-lhes a febre, pintar-lhes o rosto com caretas ou até mesmo fazer piadas com seus nomes diante de suas famílias; qualquer coisa capaz de quebrar o clima fúnebre dos dias de profissão.
Mas não tem jeito. Dia após dia, impacientes, os defuntos o esperaram, desejando que lhes arrume a cama e bem rápido.
Não adianta o coveiro lhes tratar com ironia. Seus olhos cerrados não enxergam nada, não participam da brincadeira, tampouco possuem senso de humor e o coveiro terminaria por rir sozinho.
E depois de pensar em tudo isso, já risonho de tanto remédio, o coveiro suspirou num desalento incomodado e lançou um pensamento alto, divagando consigo mesmo em tom resignado:
- Ossos do ofício!

Rafael Guerreiro

segunda-feira, 22 de junho de 2009

AMOSTRA GRÁTIS

Defronte ao bar onde eu estava há um salão de cabeleireiros com uma enorme janela de vidro para a rua. Uma garotinha contando seus 10 anos veio lá de dentro, parou diante da janela e começou a me olhar.
Apesar de traquinas, já trazia consigo uma das armas femininas: saber lançar olhares como punhais. É bem verdade que os dela ainda não passam de meros canivetes cegos, mas capazes de ferir seus pares!
Olhava-me numa altivez cômica, como se o mundo fosse ela. E quando percebeu minha indiferença, apelou para as caretas! Queria chamar minha atenção.
Brincou, brincou, brincou....Se lambrecou toda com a minha imagem, e quando se satisfez deu de ombros como quem se garante e se virou leve, despedindo-se com um andar solene mal ensaiado, forçando o salto do sapatinho.
Quando sumia, teve tempo ainda de se virar novamente e me espreitar de rabo de olho, numa inocência que qualquer mulher vivida já perdeu.
Eis uma amostra do futuro...

Rafael Guerreiro

segunda-feira, 23 de março de 2009

SOBRE SONHOS E FOICES

Zé Francisco cruzou aquelas terras com os olhos nos pés. Queria enricar ligeiro, mas foi esmagado pelas contas do patrão.
Era moço opinioso, de visão rija, embora carecesse de instrumentalidades. Escutou o latifundiário enquanto esperava a própria fala contida em lábios trêmulos. Mas faltava-lhe massa no estômago e, por isso, aceitou calado as migalhas do dono da terra.
Calou-se e esqueceu as palavras do seu ensaio, por onde desejava o justo e que jamais foram ditas e ouvidas.
Zé Francisco arou e lavrou aqueles acres, não era de reclame. Não abriu a boca durante o susto da labuta. Não endireitou a espinha sem antes tê-la sentido arder no ângulo agudo.
Cumprido o suplício ensolarado, largou a foice suja, engoliu água morna e fez caminho até a cidade em busca do primeiro sorriso do dia.
Parou diante da madrugada iluminada e bebeu e fumou extasiado, como quem comemorava um repente único. Mas sua alegria trazida num momento seco consumou-se num relance espraiado de sinestesias voláteis. E de sua felicidade fugaz restaram no balcão apenas copos sujos e a imagem de sua fronte ancorada nos braços.
Zé Francisco até tentou, mas quando o dinheiro acabou ninguém pagou pelos seus sorrisos.
E também ele não carecia de clemência. Era moço opinioso, não tinha precisão de esmolas alheias. Se não trabalhou não podia ter, e se algum dia teve já se foi.
Não pediu piedade, não fez palestra como já fizeram outros. Reverberou-se, bateu no peito e saiu na noite maldizendo Belzebu.
Caminhou titubeante naquele escuro de poemas até sentar-se e curvar-se na sarjeta de um espaço hostil.
Calado e sem nome, chorou um choro rangido de desespero, de solidão. E seu rosto pariu uma imolação sem sangue, uma prece que lhe trouxesse um viático para o futuro.
Lembrou-se então das palavras ensaiadas e do porquê de não dizê-las. Lembrou-se das dores e da humilhação, da água morna ao fim do dia. Foi quando seu olhar resignou-se num colapso de sonho e descrença.
Era moço opinioso, mas que tombou com o roçado seco. Havia esquecido o sonho com a foice.
E na cidade escura, no silêncio dos algozes, Zé Francisco ensaiou palavras novas, mas que dessa vez foram ditas e ouvidas claramente numa rezinha triste de conforto suave, entre pai e filho, entre um sofrer e um sonhar.

Rafael Guerreiro

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O ESTRANGEIRO

O estrangeiro dormiu uma noite sem instrução. Acordou no crepúsculo de um dia roxo e partiu soletrando passos sem nenhum caminho.
O sol ardia-lhe nos olhos sem qualquer licença e sua obstinação feria-lhe os pés.
Caminhou e saiu da cidade inóspita. Tomou rumo sacro e fez estrada a cada passo. Levou consigo apenas o espírito dos nômades e a paga de um jugo eterno.
No olhar sisudo não se encontravam querências, o ardor sobrepujado que sentia n’alma eram cicatrizes de sentimentos inacabados.
O estrangeiro havia perdido sua pátria, seus antepassados restavam num passado distante e se exilou diante do destino que carregava. Então fez marcha firme e partiu procurando paragens distantes, onde pudesse ser batizado para ser aceito no círculo de fogo de sua tribo.
E no ocaso daquele dia roxo, após longa marcha, quando já lhe faltaram pernas, deitou na relva simples, no aconchego da penumbra, e procurou afastar as aflições de sua alma.
Mas a tribo da qual fazia parte também deitou com ele. Também deitaram seus antepassados, vindos do círculo de fogo.
Deitou, mas não adormeceu. Admirava as constelações numa linguagem muito própria, perdido em devaneios anímicos. Sabia-se pequeno, portador de uma sina lancinante, marcado por um destino não querido, não construído. E desejou um pedido antológico, buscando um batismo de retorno.
Seu rosto sulcado de sol e lágrimas deixou transparecer por instantes um corte de amor, um desvio no olhar, um refugo no peito aberto, um pender de cãs maduras.
Enquanto jazia naquele estado hipnagógico, entre a vigília e o torpor, o vento soprava forte na madrugada nua. E quando seu coração restava nas sombras, ouviram-se passos deitando a relva simples e sussurros de vozes veladas.
As aparições aproximaram-se do estrangeiro, se curvaram até sua nudez e tocaram-lhe a fronte. Variações corriam-lhe a espinha, mas ele se sentiu reconfortado na presença quente daqueles que vinham do círculo de fogo.
Não desejava abrir os olhos, apaixonou-se pelo momento. Voltava naquele instante ao útero perdido e quando se deu conta chorou copiosamente.
Mas naquela relva, durante a roda da madrugada, onde não havia luzes nem civilização, o estrangeiro não foi levado pelos ígneos. Não ainda.
Puseram-lhe no peito uma epifania, uma marca serrada e selaram seu destino com ardores de fogo. Quebraram-lhe a maldição da saudade e da solidão, e libertaram seu coração para a vida.
No batismo de fogo, a plenitude pairou nos olhos do estrangeiro. No batismo de fogo, um conforto súbito ressoou no sangue quente, e uma rara sensação de completude profetizou dias claros de amor.

Rafael Guerreiro

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

DORES DE UM NOVO MUNDO

Não fiz palestra. Deitei ordem triste embaixo de raios de um sol ardido. Segurei o soluço num fluxo inverso e recitei um réquiem.
Mantive rumo certo sem desvio no olhar. Não olhei para trás. Era uma ilha desbravada que se perdia no ocaso.
Entre tremores tramou-se um trilho trépido de olhares marejados. Fiz pressa num caminho de momento, não podia permanecer ali, o tempo urge inóspito. A roda girou mais uma vez e num estalo gerou um passado sem precisão.
Dessa vez não houve gritos, cabeças baixas impediram revoltas. Consumado o presente, deitei passos largos e titubeados, sem vontade, mas com coragem e parti para a outra margem.
Deixei na ilha, a pedidos feitos em língua clara, todos os pertences que um dia foram meus por sentimento.
A correnteza pariu em mim dores e vicissitudes, mas criou de forma esquizofrênica uma tatuagem vermelha, de sangue rubro, de sangue apenas.
Esqueci casa, cartas, presentes e sentidos, parti rápido e sem memória para terras estrangeiras. Na correnteza, foi-se aos poucos esfarelando qualquer memória da ilha, que aos poucos ficava submersa na maré que a deglutia.
Ainda no mar, percebi que a ilha sumiu. Nada resiste ao encontro das águas.
Deixei para os escafandristas a missão de um dia encontrar casa, cartas e sentidos. Bati braçadas rumo a terras estrangeiras.




Rafael Guerreiro

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O FIM DAS TORRES DE MARFIM

Era noite alta e ainda assim não havia silêncio. Os brados de altos escalões ressonavam em tímpanos cansados. Era noite e ainda assim não havia amor.
Na cilada da História, das provas e das palavras, era ainda difícil perscrutar os motivos de tanta raiva. Tanta desconfiança emanada de pulsões freudianas e hormônios sinestésicos.
Na cadência das horas, dos minutos e dos olhares, surgiam afoitas investidas selvagens nas falhas dos argumentos, lançadas contra a sorte alheia. Eram tapas fonêmicos, símbolos quase líricos, não fosse o anti-clímax inerente.
Na noite aberta, restavam incólumes as duas torres de marfim herméticas, duas celebridades cômicas, baseadas na desconfiança recíproca.
As torres se digladiavam com armas ilusórias, buscavam ofuscar o marfim hermético uma da outra. Não toleravam o brilho alheio, e por isso lançavam cuspes uma na outra. Não se toleram e os que sobravam ao redor, com um olhar de baixo pra cima, podiam ver e ouvir as armas usadas, puras desconexões fora de contexto, palavras sem reflexão, empoeiradas pela falta de pudor e sensibilidade.
Ao final, após uma cruzada sem Cristo, uma das torres parou, rachada, infiltrada de sulcos no marfim antes alvo.
Com o cerne rachado, sem estrutura, sem pilares, sem estacas e fundamentações, era hora de implodir-se. Desmoronou num vazio insólito de agruras e tártaros, enquanto era observada pela outra torre também ferida.
E a torre que se julgava a mais alva, a mais elevada, com fundamentos mais sólidos, com estacas mais fundas, palavras mais certeiras e ideias sublimes, foi justamente esta que se implodiu da mesma forma, não por corrosões, não por ferimentos, mas sim porque seu marfim avermelhou-se na poeira deixada pela outra. E sua razão perdeu qualquer sentido, pois, já não era alva o suficiente para ser marfim. Sua estrutura, então, lascou-lhe a vida em grossos volumes que caiam por terra desintegrando-a em nada mais que sombras.
A dor da torre mais alta não era perceptível, não era física, era apenas clara consequência de que qualquer brancura, quando na guerra, se avermelha no sangue alheio.


Rafael Guerreiro

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

EPIFANIA SEM VERSOS

No começo, não havia símbolos. Eram apenas certezas universais entre sorrisos.
No começo, um olhar dizia mais que quaisquer palavras, quaisquer atos de amor eram decodificados num sistema invisível, conhecido apenas bilateralmente, por aqueles que amam.
A mágica dos toques e afagos lançava certezas que não desejavam qualquer explicação. Não procuravam as origens dos seus sentimentos. Eram feitos de matéria brilhante, de algo etéreo sem qualquer identificação.
A linguagem do passar das horas era oculta, distinta, alquímica, capaz de acelerar e desacelerar o tempo na cadência que desejassem. Não havia símbolos, não havia linguagem capaz daquela afinidade tão certa e completa. Não havia, portanto, palavras. Eles menosprezavam as palavras, repudiavam suas letras, seus significados. O tato jazia como intérprete universal do amor. O contato, assim, tornava-se próximo, desnudo e sem manobras lógicas, sintáticas.
Essa linguagem de gestos perdurava na noite aberta como um manifesto silencioso. Os seres de símbolos rejeitavam qualquer lógica, qualquer racionalização do momento que sorviam. Por isso, os hemisférios se entrelaçavam sem qualquer pudor. E seus corpos ganhavam significado na medida em que se lançavam na alteridade desconhecida.
No mais, o que viviam não se torna visível nas letras. Não há sequer formas narrativas que se abeirem de relatar aquele momento holístico. E pouco se importavam. Desejam mais perderem-se mutuamente num momento impronunciável.
Naquele universo intangível, um simples olhar serrado deixava de graça mais reflexos que palavras somadas em versos lapidados.
Naquele universo, em seu princípio, o aperto de quatro mãos entrelaçadas em seus opostos lançava na noite uma epifania sem versos, um desabrochar de sorrisos sem qualquer lógica.

Rafael Guerreiro

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

ASPECTOS DA ANSIEDADE

Parafraseando um grande amigo, ressalto em brado aberto: "Há de dar tempo".

Rafael Guerreiro

sábado, 29 de novembro de 2008

SOMBRAS MARÍTIMAS

Em minha vida, há momentos de temidas introspecções. Há dias em que contemplo, aturdido, os abismos que me rodeiam. São efervescências, lucubrações sem fim trazidas no seio de um canchal de vitupérios e decantações.
Há dias em que me admira a sorte (ou azar) que trago estampado no peito errante. São percepções acerca do conjunto de momentos que formam minha vida. São momentos de abstrações acerca dos fatos e vidas que cercaram e ainda cercam meus sonhos.
De dentro para fora, surgem variações acerca da vida, incertezas bem vindas que convivem comigo em estreita relação de mutualismo. Esforço-me em procurar sentidos absortos nesse estardalhaçar de possibilidades. Esforço-me para controlar o medo das perdas certas e purgar ansiedades intrépidas em meio a esse mar de indeterminações.
Ah! Como esse mar me fascina e me lapida! Como é fácil afogar certezas de juízos néscios! Basta um mergulho nos ditames da alma, um olhar privilegiado rumo ao centro das percepções e todas as certezas são deitadas por terra num gesto certeiro, clara demonstração de inegável superficialidade.
É nesse mar eterno que resido, procurando abrigo em conchas submarinas onde ainda resiste o oxigênio. Procuro alimento incerto em fauna e flora nativas e estranhas, frutos desse mar de águas turvas e oblíquas.
Mas é bem aí que, de tempos em tempos, recebo visitas de correntes mornas, onde lanço meu corpo em obtusas manobras, e deixo meu peso ao sabor das marés. Como um escafandrista, pairo por sinuosidades longínquas, sombras onde reencontro infâncias e sabores. Por lá, nas cadências abissais, divirto-me com carrinhos de madeira e estilingues de precisão para depois retornar às velhas conchas, onde ainda resiste o oxigênio.
Quando volto das sombras, respiro um ar ainda úmido, de odores marítimos que se perdem com o decurso do tempo.
Quando volto das sombras, meto-me a ler ficções de Borges, procurando deixas que me permitam silenciar rumores, acalmar angústias e preservar os sonhos.

Rafael Guerreiro

terça-feira, 2 de setembro de 2008

NOVAS VIAGENS

Eis que começou assim de repente e acabou num susto seco. Foi de supetão e não teve mais jeito. De súbito, os cinco anos que lhe foram contados antes de lhe serem entregues haviam se esvaído sem qualquer pudor.
Ao longo dos anos, ele perambulava pelas ruas e pela praça com as mãos nos bolsos da calça jeans sem qualquer pretexto.
Fumou, bebeu, deu risadas, escreveu, riscou, amou e chorou. Quando se deu conta, seus olhos ganharam uma quebra de página, um pasmem sem qualquer grito.
Na face, um sulco de vida entortava a pele ainda rija. Eram as conseqüências da noite que tanto amava.
E agora, não desejava o final, pedia uma sobrevida egoísta na demonstração mais humilde de que ainda queria um pouco mais, só um pouco mais...Talvez sejam as pessoas daquele lugar, ou ainda daqueles cinco anos de noites, letras e sonhos.
Mas ele sabe que seu pedido traduz-se numa bagatela. Logo sacode a cabeça e lancina o olhar. Eis o caminho a tua frente.
Ele olha para o lado e, feliz, sabe que viveu. Sabe que agora as viagens serão mais altas. Lembra-se então dos que caminharam com ele e que agora preparam-se para viajar.
Deixa de graça um sorriso maroto e, numa prece quieta, evoca sua sinceridade para desejar baixinho que um dia todos viajassem juntos...




Rafael Guerreiro

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

ENTRE AMIGOS

Havia um arquipélago de seduções onde eu dormia estéril. Minhas habilidades físicas jaziam rotas no silêncio desmedido da noite.

Reinava um sonho preto-e-branco de intenções veladas. Os poucos recortes que sobraram dele são como brilhos caóticos de um diamante impalpável.

As poucas recordações do sonho, por qualquer motivo ainda excêntrico, congregam apenas imagens foscas de um lugar distante, onde acontecia um diálogo sério, versando sobre identidades e papéis.

Alguns livros esparramados por uma mesa onírica ditavam o tom erudito do diálogo. Neste momento, meu corpo não era mais que a imagem taciturna do vazio. Nos instantes do sonho, a vida acontecia em outro lugar, distante, entre amigos. E meu corpo era apenas a testemunha de uma atividade clarividente.

Era um lugar de pessoas sérias, mas não trago comigo mais que suas vozes temperadas. As faces por trás das vozes são como um mistério metafísico incapaz de qualquer adivinhação. Senti-me por alguns instantes como que em meio a profetas de palavras certeiras.

Deito agora ao fio da pena apenas as impressões imprecisas do lugar onde estive. Lanço no papel rabiscos de um rascunho grosseiro, caricaturas ensangüentadas feridas por navalhas de letras.

Mas nas imagens que guardo nos bateres do peito, brota um alvorecer de sentimentos intangíveis. Uma certeza feita de passos n’água e visões diáfanas.

Pressentimentos da volta formavam um risco perplexo entre a junção de mente e corpo. Nas paragens de cá as horas corriam alucinadas e demandavam o retorno.

Chegava o final da noite e do sonho e acontecia ali o retorno às paredes do quarto e às penumbras do sol ainda por nascer. Aos poucos, meus olhos se abriram ainda aturdidos e confusos de luzes e sombras.

O dia nascia. Levantei-me da cama e, de súbito, abri a janela num gesto certeiro. Contemplei o canchal de luzes num silêncio aturdido e fiz do momento uma prece humilde.

Respirei o ar da manhã como quem aspira certezas atávicas e desejei o dia num ardor de pulso e alma. Guardei num soluço uma alegria singela e senti-me feliz por saber que naquele dia tão lindo respirei satisfeito sabores de longe.

Rafael Guerreiro

EM BUSCA DO SOL

Minha namorada e eu recentemente fizemos uma viagem de ônibus cruzando o sul do Estado de Minas Gerais.

Pelas cidades que passamos, acabei por conhecer várias pessoas. Eram homens e mulheres que passavam pelas rodoviárias, indo e voltando dos mais variados lugares.

Alguns traziam no peito uma saudade antiga, uma tristeza das mais solitárias; outros saíam forçados de seus lares, tentando a vida do jeito que podiam. Mas todos, de certa forma, traziam consigo suas próprias lembranças. Eram narradores solitários que nunca esperaram por qualquer ouvinte interessado em suas histórias.

Quando regressávamos a Franca, passamos pela rodoviária de uma das muitas cidades que paramos. Eu estava cansado e faminto. Esperava ansioso o ônibus ainda incerto, pois no guichê da rodoviária, nos disseram que as passagens haviam se esgotado e, por isso, talvez não poderíamos chegar a Franca no mesmo dia. Mas mesmo assim, ficamos na madrugada esperando pela sorte.

Enquanto esperávamos, um viajante qualquer se aproximou. Tratava-se de um vendedor ambulante aguardando seu ônibus. Era da Bahia e trazia consigo uma enorme caixa de isopor equilibrada na cabeça e um violão junto ao ombro.

Num primeiro momento não dei conversa, mas, de súbito, passamos a conversar enquanto o ônibus demorava. Então, contou-me que já viajou por todo o Brasil, procurando as festas e jogos de maior calibre, onde se alojava tentando vender suas latinhas de bebida. Quando terminavam as festas e os jogos, juntava seus pertences e partia para outras paragens, em busca do sol.

Falou ainda que diante das muitas andanças que fazia, passou a colecionar os bilhetes das viagens. De tão exóticas e distantes - dizia ele - mereceram ser postas numa caixa bem guardada em sua casa.

Mas no meio do assunto, sem cerimônias, foi-se embora tomar o ônibus que acabara de chegar. É uma pena, porque ele se foi e não tive tempo de saber o porquê de carregar junto com tamanha caixa e peso um violão pendurado com custo junto ao ombro. Ora, se estava trabalhando, acredito que não teria muito tempo para tocar músicas, tão pouco apresentá-las ao público.

Foi-se embora e sumiu na multidão. Nunca saberei de fato o que pretendia com o violão. Resta-me apenas imaginar alguma coisa, um sentido para aquele instrumento.

Talvez pretendia trazer em seus tocares a lembrança de sua terra, quiçá um hino triste de sua sina de viajante. Poderia ainda ser o violão apenas um alívio que encontrou para suportar a solidão de tantos quartos estrangeiros pelos quais passou.

Mas não teve jeito. Foi-se embora deixando-me com a curiosidade aguçada e um sentimento inacabado.

Em minha memória, ficaram apenas uma caixa de bilhetes de viagem e a imagem do violão, que por certo ressoará melodias de lugares distantes, tocadas na toada triste do viajante em busca do sol.

Rafael Guerreiro

ESCUTEMOS, POIS, A BANDA

Começo por um assunto engraçado. Eu caminhava pela rua quando, de súbito, em minha frente um garotinho levou um tropicão. Certamente, o garotinho não contava mais de dez anos. A garotinha que o acompanhava (muito provavelmente sua irmã) desatou uma risada das mais gostosas.

O garotinho não machucou, pelo contrário, logo saiu rindo junto com sua suposta irmã e foram embora degustando o acontecido!

Enquanto isso, eu passava no meio deles e não pude deixar de repará-los. A risada alegre e pura foi tão espontânea que não teve jeito, contagiou-me! Comecei a rir de canto de boca e passei por eles enquanto lembrava de quando eu costumava rir daquele jeito.

Aos olhos dos meus leitores, tal fato pode mesmo parecer apenas tolice, mas mesmo assim resolvi escrever sobre o acontecido.

Na verdade, escrevi esta crônica para mim mesmo, para não me esquecer de dar boas risadas como aqueles garotos. Esta crônica cabe-me antes como uma advertência, um conselho inominado sobre algo simples, mas esquecido por mim.

Não sei ao certo os motivos, talvez sejam os problemas jurídicos com os quais meus estudos me levaram a lidar diariamente; talvez sejam ainda as formalidades dos ritos processuais. Seja como for, há tempos minha vida se encerra em papéis e computadores e não creio serem estes objetos muito engraçados, dignos de boas risadas espontâneas.

Portanto, talvez seja daí onde surge meu espanto diante de uma simples risada gostosa, e este espanto é algo preocupante, um termômetro contando já altos graus.

A vida não deveria se espantar com certas simplicidades e alegrias como esta, desprovidas que são de malícias. Elas não deveriam apresentar-se como tão raras.

Antes seria melhor fazer dos fatos não mais que uma simples passagem de uma alegre banda que chega cantando e tocando. Às vezes ela até passa, como passaram aqueles garotinhos, mas a seriedade dos problemas tende a cegar-me os olhares.

Eis aí a esfinge dos sérios: transformar os dias e sua gravidade na cadência de uma banda que passa!

Deixemos, pois, a banda fazer-se ouvir e passar. Não é mais certo senão entusiasmar-se com ela. É um santo remédio essa banda, suas músicas, sua alegria de ontem e hoje.

Escutemos, pois, a banda, ela resolve por si só alguns problemas sem solução. É verdade, acreditemos em sua homeopatia: funciona!

O remédio é santo, o Grande Chico já o disse. E não é que até mesmo o homem sério que contava dinheiro parou para vê-la, ouvi-la e dar-lhe passagem?

Rafael Guerreiro

segunda-feira, 21 de abril de 2008

É NESSE LEVA-E-TRAZ QUE EU ME DESCUBRO...

Mas o que é isso? Não há mais choro, nem morte. O que tenho é antes alívio.
Tenho amigos, livros e trago em mim facetas insondáveis. Não tenho tesouros meus, embora eu usasse mesmo mais os dos outros.
Trago em mim um encontro marcado, algo que tinha que acontecer e que aconteceu. É a minha história acontecendo, são os dias e as pessoas que eles trazem e levam. Nunca vi nada que trouxesse e levasse tantas coisas de uma só vez. Eficiência de fazer inveja em qualquer Correio ou Fedex!
E não é que para mim trouxeram boas pessoas! Muito, mas muito melhores do que eu!
Trouxeram também sonhos, tentativas e novas descobertas. E eu tenho que ficar por aí, dando conta de inventar um jeito de lidar com tanta fauna e flora diferente!
São mesmo uns trovadores esses dias. Sempre convidando a gente a acreditar em suas serenatas e trovas diárias. E se não acreditamos nesses dias, se não nos entregamos aos seus caprichos o que nos resta?
O bom é que pelo menos eles têm um senso de humor afinado e adoram uma bela troça.
Esses dias.... Ah! Esses dias e suas troças curiosas... Não é que agora me trouxeram um livro e dois amigos?

Rafael Guerreiro

terça-feira, 11 de março de 2008

MAR DE RESSACA

Quantos são ainda os tormentos que terei de expurgar como que exorcismos de mim mesmo? Quantos são ainda os beijos de suplício ensandecido dos quais carecerei?
Deixo aos pés da mansarda apenas a certeza de que seguro a linha como o velho de Hemingway, até o sangue transbordar da carne para a água.
No encontro comigo mesmo, espero que a maré traga algum tesouro, alguma garrafa que contenha os desejos mais bem guardados, os objetos mais particulares que os escafandristas não encontraram em nenhum mar profundo.
Deito os cotovelos na janela de um ocaso inóspito e ouço do mar serestas intangíveis, sons de um compasso muito próximo, sons de uma toada feita a dois.
Guardo ainda dentro de mim o entusiasmo das ondas, o encontro com meus sentimentos tão símiles da dor, tão fomentadores do vento. Guardo ainda em meus desertos sequiosos a carícia de um amor, o desencontro amorfo de vitórias e derrotas.
Sei que do tempo espero respostas, sei que do mar espero similitudes, anseio por descobrir invasões bárbaras que fizessem em mim mesclas de cores e corpos. Espero do mar sensações de aconchego onírico, onde eu possa saciar-me a mim mesmo em êxtases de liberdade.
Naquela janela de fronte ao mar deito minha vida, esperando dele uma fidelidade inviolável. Com o olhar fixo permanecerei ali, aguardando daquele oceano inspirações tão raras, tão sedentas de vida. Ficarei ali como quem aguarda no porto. Sei que minha profissão será a espera no porto pelo encontro inesperado de ventos intermitentes. Espero no porto pela maré de toques e afagos. Espero no porto por um amor que chegue com as ondas e que fique nas redes que lancei naquele mar de ressaca.

Rafael Guerreiro

sábado, 8 de março de 2008

RECORDAÇÕES DA TERRA DOS VIVOS

São ainda pujantes as sendas do passado entrelaçadas por entre as sinuosidades do presente. Na infância, as horas tendem a se perpetuar em cada instante, em cada sensação nova que preenchia meus pensamentos e sorrisos.
Por aqueles dias recheados de um brilho intenso e leve, onde o movimento dos instantes era perene, criando a escassa impressão de que o tempo não existia, era eu que por mais que sofresse as inconformidades alheias sentia antes em mim a presença de um Deus concreto, incapaz de se mostrar nos elementos de qualquer teoria. Eu podia segurá-Lo na mão, senti-Lo encarnado em mim tão concretamente como qualquer maçã que eu comia com gosto.
Nas manhãs de sol, onde visões diáfanas enchiam de cor e vida o vaso novo que eu trazia em mim, eu voltava meus interesses todos para o desvendar de enigmas de uma vida curta ainda. Eram os movimentos dos quais hoje já não me disponho, eram sutilezas de uma alma incólume dos mistérios invisíveis que viriam a permear fatalmente apenas o mundo dos adultos. Mas como eram doces aqueles enigmas, como traziam em si paladares fortes de iguarias incertas e distantes. Como aquele tato, aquele paladar, aquele olfato e aquela visão eram tão simplesmente certas, postas diante de mim nitidamente como nada jamais ousou apresentar-se.
Era essa a certeza que trazia até mim esse Deus de quem a pouco falava. Eram essas as sensações que a passos lentos e titubeados foram aos poucos construindo em mim estalactites, fundações de uma gruta absorta, inexoravelmente infinita, formada a duros custos na medida em que minha idéia do divino deixava irremediavelmente meus sentidos, minha concretude tão certa e palpável para percorrer agora apenas as incertezas de sinapses confusas e obscurecidas. Era esse o legado advindo da queda daquele maravilhoso, porém agora acanhado, anti-mundo de negação a tudo o que não se podia ver nem tocar.
E como o tempo me empurrou para o colapso inescusável de meu próprio parto. Como foi que aos poucos minhas certezas foram lentamente aniquiladas por dias insólitos e suas dores vis? Como meus sentidos aos poucos passaram a me enganar e a me confundir? Como, justamente eles, meus sentidos nos quais eu depositava romanticamente minhas certezas passaram agora a negar-me as cores e luzes que antes somente eu avistava em meus próprios sorrisos? Não sei como o processo se deu. Não sei como permiti a mim saciar-me mais do vinho que das belas uvas de outrora; mas o que restaram dos sorrisos e de todo aquele mundo sortido de paladares fortes e marcantes, são na verdade tentativas de negar o implacável fluxo do tempo. E por este exercício vital, bem pouco ainda consigo enxergar daquele antigo Deus por onde tudo fazia sentido. Era Ele imerso em sinestesias multicores, mas agora respira apenas de tempos em tempos, quando, despido de minhas verdades sérias, alço vôo em direção aos ventos de outrora, que insistem em querer arejar meu pesado músculo que dolorosamente perdeu-se nos meandros de abstrações sem nenhum sabor.

Rafael Guerreiro
Imagem: A Criação de Adão, Michelangelo Buonarroti, 1511. Afresco, 280 x 570 cm. Teto da Capela Sistina (Roma)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

PROFISSÃO DE FÉ

Lançar mão de minhas idiossincrasias e pô-las todas no papel é tarefa que sempre me apetece. Talvez sejam apenas frutos de uma mente inquieta, incansavelmente inquieta e investigadora, talvez apenas demonstrem as entranhas de um inconsciente perturbado. Não há meios de se saber isso. O que sei é que nasci assim, com esse ímpeto de escritor opaco, sem referências nem similitudes.
Por vezes essa sina de escrever transtorna meu chão fatalmente concreto e estável. É que por de trás das letras começam a surgir toda sorte de impressões e sensações que trago em mim sobre o mundo que conheço. Seriam apenas conseqüências de não se ter um rumo a que seguir? Seriam espasmos de uma ansiedade latente e perturbadora? Deixo aos sábios as respostas de tais indagações. O fato é que nasci assim e me insiro na vida pela lógica escrita que teço.
Deixo igualmente aos sábios a tarefa de analisarem meu pudor lógico e textual. Prefiro ficar apenas com o escasso ímpeto natural de continuar esta saga escrita que narra minhas impressões, sensações, conclusões e erros sobre minha vida. Afinal, o que escrevo não poderia deixar de ser senão para que os outros lessem, pois ninguém ascende uma vela para pô-la debaixo da mesa, conforme o que posso extrair da Bíblia.
Digo apenas que venha o momento que vier, sejam os equívocos os que ocorrerem, mas trarei sempre em mim as sombras daqueles que passaram pela grande marcha e não se permitiram aquietar-se. Seja para concluir que o sertão está dentro da gente, seja para receber do anjo torto que vive nas sombras um destino sublime. Seja ainda, para me exilar em uma montanha mágica e me transfigurar ou ainda para arrancar do amor olhares de uma cigana oblíqua e dissimulada.
E digo que terei filhos e que transmitirei a eles o legado de minha miséria.

Rafael Guerreiro

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

DURANTE A CHUVA

Naqueles pingos de chuva que caiam, deslizava o verbo ser em cadências repetidas.
Chovia uma chuvinha fina, daquela que faz-nos prender a nós mesmos num estado de análise. No fundo, o motivo dessa melancolia era o tempo que teimava em passar tão rápido. Essa era a esfinge que consumia meus pensamentos.
Recuso-me a acompanhar o tempo, prefiro a quebra da cadência repetida das horas sem adjetivos. Debruço-me em déjà vus inesperados como quem procura advérbios para a alma.
Olho para o chão próximo do meu quarto. Vejo apenas as ondas que se formavam pela queda dos pingos d’água amontoados. Esse era o movimento que eu buscava, desordenado, caótico, sem referências.
A imagem onírica dos pingos que caíam, criava em mim a sensação de negar qualquer ordem artificial, qualquer tentativa ensandecida de regrar o presente em horários estabelecidos, em neuroses que me prendem num cárcere de grades invisíveis.
Fecho os olhos num momento sem fim, onde já não há mais o tempo nem o mundo contido em suas leis humanas. Escuto simplesmente os pingos d’água caindo, caóticos, livres, comunicando a mim o recado nítido de que amam o que são, porque são livres enquanto existem.

Rafael Guerreiro